Que Diabos é isso: a poética da performance de ruptura

Tony Perucci

Portuguese Translation by Teatro Parabelo (São Paulo, Brazil)

Hoje a noite rola o Brainstorm (ensaios de conteúdo) que marca o ponta pé inicial do projeto Midiotaz. Neste ensaio o Teatro Parabelo apresentará suas referencias para o desenvolvimento das ações do projeto além de se abrir para as referências dos participantes do ensaio aberto de hoje.

 

Disponiblizamos aqui uma versão livremente traduzida e editada do artigo Que Diabos é isso: a poética da performance de ruptura escrito por Tony Perucci professor assistente da Univeridade da Carolina do Norte - EUA. Neste artigo temos expostos e debatidos as diretrizes artísticos-filosóficas do projeto conferindo embasamento e sustentação teórica ao mesmo.

 

Em anos recentes, temos presenciado a emergência da prática de performance política de rua. frequentemente designadas como "intervenções" ou "ativismo performático", muitas dessas ações vão além da trasnsparência política da mensagem tradicional da performance agit prop. Ao invés, elas mobilizam qualidades particulares da performance -que eu chamo "performance de ruptura"-- em modalidades de oposição aos efeitos paralizantes da sociedade do espetáculo. Aproximando-se da estética Brechtiana e da figuração Artudiana do estado poético, juntamente com o Dadaísmo e a arte minimalista, a performance de ruptura encena rompimento, evento, confrontação e perplexidade como formas de ação direta.

 

 

"Todo dia, faça algo que não será computado"

— Wendell Berry, O Manifesto do fazendeiro louco

 

 

Este artigo aborda o que é particular à performance também chamada de "intervenção" ou "ativismo performático". As características dessas ações performáticas funcionam de maneira que são específicas à sua forma e vão além de qualquer mensagem ou conteúdo que elas podem (ou não) visar abranger. Em face do que Guy Debord designou, uma vez, como "sociedade do espetáculo", Jacques Rancière aponta o desafio do que chama dilema da "crítica artística": "entender apenas pode fazer pouco para transformar consciências e situações. Os explorados raramente precisaram ter as leis de exploração explicadas a eles. Pois não se trata de incompreensão acerca do estado existente de interesses que alimentam a submissão do oprimido, mas a falta de confiança em sua própria capacidade para transformá-las."

 

A seguir, apresento e delineio as características críticas dessa forma insurgente de ativismo performático que estou chamando de "performance de ruptura” uma vez que elas são interruptivas, evento- em- devir provocando perplexidade e confronto. Entender performance como ruptura fornece uma ferramenta significativa para se pensar e criar intervenções de performance política, centralizando o foco no ato performático. A própria ruptura não é um "novo" elemento na cultura e certamente possui um longo legado no modernismo.

 

Ao definir performance como ruptura, devemos enunciar o que ela rompe. Correndo o risco de construirmos um falso binário, deixem-me estabelecer que a proposição de "performance como ruptura" é o "espetáculo" de Debord. O mesmo explica que, enquanto a sociedade do espetáculo é de fato "uma acumulação de espetáculos, faz a distinção de que "o espetáculo não é uma coleção de imagens; são as relações sociais entre as pessoas mediadas por imagens”. Mesmo que Debord a designe como "weltanschauung”, é mais do que uma ideologia ou um véu de falsa consciência. Ao invés, "é o próprio coração da irrealidade da sociedade real,"e assim a materialidade estende a alienação da produção de mercadorias ao seu consumo: o espetáculo produz "isolamento" através da fratura entre fazer e "contemplar", de onde " a alienação do espectador e submissão ao objeto contemplado funciona da seguinte forma: quanto mais ele contempla, menos vive". Como resultado, o espetáculo como "relação social" representa o triunfo da imagem-mercadoria, da ordem vigente...monólogo ininterrupto de auto-indulgência" onde "a mercadoria completa a colonização da vida social”. No entendimento de que os espetáculos não são meros espetáculos, mas uma modalidade de experiência, na qual separação e contemplação achatam o encontro com o presente, Debord propõe "situações" especificamente para intervir ao nível da experiência.

 

Entretanto, em sua recente tentativa de caracterizar o novo ativismo, Stephen Duncombe Sonho: reimaginando políticas progressivas na era da fantasia, propõe que o próprio espetáculo é a base para protesto, e que a distinção entre espetáculo e situação é meramente "semântica". No lugar, ele propõe o "espetáculo ético":

 

 

Nossos espetáculos serão participativos, sonhos que o público pode moldar e influir. Eles serão ativos:

 

espetáculos que funcionam apenas se as pessoas auxiliarem a criá-los. Eles serão final-aberto: estabelecendo

momentos para perguntar e deixando silêncios para a formulação de respostas. E eles serão transparentes. sonhos

que o sujeito sabe serem sonhos, mas que ainda possuem o poder de atrair e inspirar. E finalmente, os espetáculos

que nós criarmos não irão encobrir ou substituir realidade e verdade, mas executar e ampliá-las.

 

Há muito a ser obtido da esquematização de Duncombe e o que desejo fazer é ampliá-la através da confrontação com o caráter distinto do "espetáculo". Como venho tentando mostrar em meu breve sumário acima, o espetáculo não é apenas algo a ser visto, mas também um modo de performance. performance intervencionista, particularmente aquela que visa confrontar e romper com valores, e especialmente com a experiência da sociedade do espetáculo, é outra modalidade de atuação, mais do que uma variação de espetáculo. Enquanto intervenções performáticas dividem com o espetáculo as qualidades de serem dramáticas e teatrais, o que as distingue é o rompimento com a experiência da vida diária, uma ruptura com o viver das relações sociais. A interrupção, que Benjamin poderia chamar "começo inesperado" ou "choque", cria o espaço e inicia a experiência da performance de ruptura.

 

Tendo-se em mente o promissor esquema apresentado por Dubcombe clamo pela proliferação das performances de ruptura. Abaixo segue a tentativa de identificar ruptura como "modalidade" de performance que objetiva romper, ou pelo menos, foder com o espetáculo.

 

A partir da proposição de Ducombe acerca do "sonhar o impossível" como o elemento crítico para um ativismo performático, irei introduzir meu modelo através de um exemplo oriundo de filme de ficção. O filme de 2004, Die Fetten Jahre Sind Vorbei (The Fat Years are Over), lançado nos Estado Unidos como The Edukators, começa da seguinte maneira: uma abastada família alemã retorna ao lar e se depara com o mesmo invadido. O primeiro sinal de problema é uma grande torre feita com os objetos da sala de jantar. Eles encaram a escultura, congelados em perplexidade. nada, entretanto, foi roubado. Mas seus abundantes bens foram denegridos: um busto de porcelana se encontra "enforcado" por um laço, estatuetas de vidro estão enfiadas no vaso sanitário, o aparelho de som se encontra na geladeira e, finalmente, uma carta diz "Lessen!" (Leia!). Dentro, a mensagem do grupo anarquista que reorganiza as posses das residências abastadas: "Seus dias de fartura acabaram". Eles param e encaram, confusos.

 

1- Performances de ruptura são interferentes: De certa forma, essas performances obstruem, impedem, ou atrasam as práticas habituais da vida diária, elas intervém ao nível e no meio do cotidiano. Tais performances articulam a "interrupção necessária", que objetiva tornar consciente o habitual para que o mesmo se torne passível de crítica. Dessa maneira, elas compartilham a noção Debordiana de situação construída-"A construção concreta de estabelecimentos temporários de vida e sua transformação em elevada e apaixonada natureza"--sendo inerentemente interferente na forma que " proporciona uma concepção não-contínua da vida". Elas visam desestabilizar o que o formalista russo Viktor Shklovsky chamou de "automatismo da percepção". Para Shklovsky, o papel da arte é desfazer a "habitualização" que, diz ele, "devora trabalho, roupas, movéis, a esposa de alguém e o medo da guerra". Shklovsky chama de "desfamiliarização” tal resgate da percepção, para qual a frase russa é "priem ostraneniye, sendo a tradução literal "tornar estranho". Brecht percebeu o potencial político para esse conceito como Verfremsdungeffekt, que é fundamental ao focar a experiência de tornar o familiar estranho, tanto quanto a transmissão de uma mensagem política. Na aceleração da vida contemporânea, caracterizada por imagens e simulações, essas performances articulam o que Walter Benjamin chama de "interrupção dos acontecimentos" que estranham as "condições da vida". É essa interrupção, Benjamin sugere, que permite a performance obter a "característica especial de produzir espanto ao invés de empatia". Performances de ruptura, ademais, ocorrem não no âmbito da representação, mas no campo da presença.

 

 

2-Performances de ruptura são eventos em devir. Isso é, elas produzem "insights significativos durante a performance"e mesmo com suas fronteiras instáveis e não fixadas, é a eventualidade das performances de ruptura, sua singularidade no tempo e no espaço, que propicia a perplexidade do espetáculo. Alain Baidou coloca da seguinte forma: " Esse outro tempo, cuja materialidade carrega as conseqüências do evento, merece a designação de um novo presente. O evento não é passado ou futuro. Ele nos torna contemporâneos ao presente". E ainda, a instabilidade das fronteiras do evento é igualmente significativa. Performances de ruptura tendem a confundir as fronteiras entre real e artificial. O evento em si da performance é gerado por meio de artifício, no qual a audiência frequentemente não percebe que está em uma performance. Nas performances de ruptura, frequentemente a audiência suspeita, a princípio,de que algo não está certo, mas não possui certeza sobre o que está diferente do esperado. Finalmente, porém, o "insight significativo" da performance manifesta que as coisas não estão normais, elas são estranhas, e nós estamos no meio do evento. É essa eventualidade (e o processo antecipatório do evento em devir) que dá vida a ocasião do aqui e agora. E a imediaticidade temporal é capturada pelo que Benjamin chama de do Jetztzeit ou a "presença do agora".

 

3- Performance de ruptura é confrontação. Com isso não quero dizer necessariamente agressivo, apesar de elas poderem ser, prefiro recorrer ao que Benjamin define como espanto. Performances de ruptura são, portanto, distintas da performance "revelatória" que desmascara as verdades escondidas ( apesar de também poder fazê-lo). Na nossa era, o que Marx chamou de o "segredo da mercadoria"--que é o preço mascarado do trabalho alienado que a produziu--é agora exposto. Nós sabemos, por exemplo, que muitos dos produtos que compramos são produzidos por trabalho fabril precário, mão de obra infantil e escrava, mas desenvolvemos o que Adrian Piper chama de "maneiras de prevenir o olhar". Performances de ruptura são, portanto, menos uma crítica da ideologia ou falsa consciência e mais uma experiência de encontro, retorno do olhar que o sujeito evita para manter a aceitação em relação às inequidades da ordem social contemporânea. Conforme Husserl nota, "as coisas simplesmente estão ali, apenas precisam ser vistas". Bruce Wilshire também vai nesta direção quando descreve fenomenologia como um "esforço sistemático para desmascarar o óbvio”

 

4- Performances de ruptura são intrigantes e confundem. Ao invés de uma abordagem pragmática de comunicação eficiente, performances de ruptura são tributárias do conceito de "fazer o desnecessário", proposto por Mary Overlie. Para a mesma, a ação "desnecessária" sabota a "eficiência" da performance, ao fazer aquilo que não é convocado para a atividade habitual. "Nessas atividades desnecessárias o corpo, sentidos e objetivos ficam em evidência devido ao fato de não conhecerem a rotina. O corpo e a mente são colocados em um estado acentuado de autoconsciência e, portanto, funcionam com estimulante exatidão ao transformar performance em extra-performance (cotidiano/extra-cotidiano)"(Overlie). Por conseguinte, performances de ruptura são, paradoxalmente, miminalistas e maximalistas.

 

Performances de ruptura carregam a noção de que a mensagem política é, algumas vezes, não imediatamente clara, encarnando o que Artaud chama de "estado poético". Ao invés da clareza da mensagem política das performances de agit-prop, performances de ruptura são caracterizadas por "sonhos verdadeiros e não uma cópia servil da realidade". Esse "ataque na sensibilidade do espectador", Artaud diz, é uma forma de "ação direta" e se enquadra no ativismo contemporâneo da ressurgência dos neo-situacionistas e neo-anarquistas como Crimethinc, cujas “receitas para o desastre: um livro de culinária anarquista" instrui leitores à "ação direta" (que eles consideram ser o "oposto" de "representação" que "evita regulações, representações e autoridades". Em sua defesa de substituir "representações de sexo" por "sexo real", estabelecendo as dimensões teatrais da ação direta: "é tempo de para de ser espectador e começar a ser ator" (Dias de Guerra 201).
 

A materialidade da ação direta e a ênfase de Artaud na "imediaticidade" do estado poético ocorre na "ruptura entre as palavras e as coisas" e portanto funciona na conjuntura do literalismo fenomenológico-minimalista, com o desígnio nonsense do Dadaísmo, ao produzir uma "expressão concreta do abstrato". Se Brecht move-se do "ohh" do espetáculo para o "aha!" do Teatro Épico, então Artaud acrescenta o elemento "Hunh?".

 

Se há uma resposta correta à performance de ruptura ela é "Que diabos é isso? Não, sério, que diabos é isso?" Performances de ruptura visam "escapar da tirania do sentido", para usar a frase de Barthes. E escutei conversas assim em peças de agit-prop: "o que está acontecendo?" "Ah, algum tipo de protesto", e seguem passeando. Quando meus estudantes executaram uma sessão aberta de viewpoints, próxima a um monumento de um feto abortado de cinco metros de altura, um aluno veio e me perguntou: "você sabe o que está acontecendo?" eu disse, "o que você acha que está acontecendo?", ele respondeu: "Não sei, parece simbólico". "Simbólico do que?". "Eu não sei!"- ele disse, enquanto continuava pensando a performance a partir de várias posições. Na variável de performance que chamo de ruptura, isto é, um interruptivo e aberto evento-em-devir, confrontativo, intrigante, "eu não sei" é uma resposta não facilmente digerida pelo espectador.

 

Tony Perucciprofessor assistente da Universidade da Carolina do Norte especializado em composição performática, mídia e performance, Teatro Físico, Ativismo Anticapitalista, Teatro de Vanguarda, Cultura e Guerra Fria.